terça-feira, 23 de agosto de 2011

Fluxo solitário




Que considerações importantes eu deveria fazer hoje?! Eu deveria fazer várias, se eu pudesse. Os pensamentos me vem e me fogem, as frases se formam e depois derretem na dúvida entre escrever ou não.


Ontem confessei que já não podia escrever. Não sei por onde passeia minha inspiração. Meus fluxos de consciência solitários procuram por ela.


Eu ouço a música pra tentar chamar a poetisa, eu ouço também a canção da razão e então só sinto a angústia contornando o ventre. A angústia é muda, exceto pelos urros.


Quem sou pra querer gritar por todas as injustiças?! Minha pequenez traz-me de volta à angústia e como num ciclo ininterrupto eu vasculho o redor, eu encontro as minhas causas pra chorar, eu choro e reencontro nas lágrimas a estática, a impossibilidade, a angústia. 


E o entorno de mim é dilacerante, 
nem aqui nas proximidades posso atuar...
Quem dirá
nos entornos do mundo, da miséria, da ignorância que não só empobrece os bolsos, empobrece, de amor, o espírito!


Olhos que me olham, não podem me enxergar.
Eu estou aqui em mim, onde os olhos jamais poderão ver, na minha angústia que me cerca por perto, na angústia que me cerca nas estruturas de um mundo carente de graça e rico em pobreza humana, na pobreza humana, através da pobreza humana (Um mundo lá dos altos e poucos, longe dos baixos em baixo, na ponte).


Duas palavras
ouço a angústia sussurrar:


Justiça, liberdade.


Por ora, talvez seja só...entre outras palavras que ainda não são tais, são esboços de sussuros da angústia.


Samara Belchior (Num fluxo de consciência solitário e hermético)






domingo, 27 de março de 2011

Prisão.



Enquanto seu corpo trêmulo se arrasta preso na realidade, sua mente, lúcida, grita pela libertação. Ela reconhece a prisão, os horários a serem cumpridos, as normas, os limites, o que se pode ou não...Isso não existe. Existe a determinação e a aceitação. A necessidade força a aceitar, posto que a maioria aceita.


A mente deve enlouquecer em qualquer momento breve, é provável que não suporte a contradição. As coisas aos poucos deixam de fazer sentido, os sonhos deixam de existir, pois o ilusório foi convertido em fatalidade.


É tão claramente perceptível agora, que todas as capacidades humanas são desprezadas e como um objeto, o ser serve para pouca coisa, com função determinada.


As informações obtidas, os livros lidos, já não bastam. As coisas estão acontecendo e a teoria não lhes causou modificações. As palavras espalhadas pelas páginas já não contem significação; enquanto os olhos procuram verdade, sentido, uma mensagem, os órgãos do tórax, o estômago, as entranhas estabelecem movimentos repetidos e angustiantes. O corpo ofegante, irriquieto, palpitante quase se rasga ao meio como se pudesse libertar as vontades da alma para fora da abstração; cuspir moral, ética, respeito, igualdade, aceitação, completude, virtude, num jato único de transformação.


A constatação das coisas é grave, é lamacenta. Por isso os contos de fada. É tão simples esconder-se nos cantos fugidios da mente pois, uma vez do lado de fora, alma e corpo parecem se repelir, tornam-se incompatíveis. A alma já não deseja  habitar a realidade corpórea sombria, almeja dela desfazer-se.


Não é poético observar o miserável e, não é belo compreender que é usurpada do ser a liberdade com que deveria nascer, sua alma a pressupôs mas o sistema exterior, as instituições malditamente criadas já lhe traçavam os passos.


Aquela louca alma que grita por verdade, que chama por libertação...pobre alma, está relegada à solidão, angustiante solidão.


Samara Belchior 18/03/2010. 

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Anjo Gabriel.



Minha poesia repete teus olhos,
tua face macia,
boca doce,
perfume envolvente.
Minha boca repete meu amor:
Te amo, te amo.
Meu amor repete-se diariamente,
e crescente.
Seu eu, encantador para mim,
é a promessa do nós.
Meus olhos se fecham nos fins de dias
ansiando por ter teu olhar,
em todas as manhãs.
Tão pouco sei dizer do todo
que sinto.
Amor, te quero tão bem porque,
te amo, encanto!

Samara Belchior (07.11.10)

domingo, 12 de dezembro de 2010

Infarto

O mundo jaz no egoísmo,
maldito grudado na pele 
corre pelos cantos e centros.


O mundo não contem o outro,
é o núcleo fechado do "mim",
cercado pela moldura do espelho.


As cores da propaganda desfilam
no palco que esconde por trás da cortina 
a chacina da miséria.


Quem sente não pode fugir
e o sentimento que virou mercadoria, 
vendido é jogado - brinquedo velho no canto.


Quem sente só sofre a angústia, 
estatelada pelos meios da garganta, 
guardada numa lágrima contida.


Eles caminham massificados
ignorando sua massificação;
fantoches do materialismo, ignoram
tão só a parte metafísica das coisas,
choram um momento diante do caixão,
mais tarde achando-se sóbrios
mergulham outra vez no que pensam
ser eterno: a satisfação, os medos que têm,
o conforto, a alienação.


Um dia se acharão surpresos quem sabe?! 
diante da moldura de um espelho que
lhes roubou os anos, pessoas, sentimentos, 
valores...


(21.11.10- 01:04 da madrugada)


Samara Belchior.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A cidade é fria
Só não vazia
De impessoalidade.
Olhos vazios passeiam seus prédios inertes
Rostos maquiados gritam por amizade,
Empatia, Sociabilidade.


(No metrô, indo pro Centro, em algum dia no passado)


Samara Belchior. 

sábado, 6 de março de 2010

Contidamente


Pulso.
Batidas.
Sensação.
Não há pra toda coisa explicação.

Algumas notas musicais gritam.
Gritam, gritos da alma,
daquele canto perdido
que tenta se expressar.

Restam as vezes apenas uns instintos
Uns pedidos repetidos
da mente pro corpo.
Sentidos.

Forma-se bem dentro uma explosão.
E não explode, não canaliza.
Não vira,
revira, não concretiza.

Está no vento, no tempo,
pele, olhos, coração.
Pulsa somente,
sem externalização...

Um grito contido
num canto interno do eu.
O "ser" mantêm-se
escondido no breu.

Enquanto o peito lateja
escondido atrás do vermelho da blusa,
todo o interno movendo,
todas as coisa loucas de dentro.

Samara Belchior (05/03/2010)







quarta-feira, 3 de março de 2010

A Primeira...

"Filas de rostos pálidos murmurando, máscaras de medo, 
Eles deixam as trincheiras, subindo pela borda, 
Enquanto o tempo bate vazio e apressado nos pulsos,
E a esperança, de olhos furtivos e punhos cerrados, 
Naufraga na lama. Ó Jesus, fazei com que isso acabe"


Siegfried Sassoon citado por Hobsbawn em "Era dos extremos"




E lá se ia a Belle Époque. Aquela nova fé na ciência, na tecnologia, no progresso, na civilização, vivenciada pelo europeu do final do XIX,início do XX, era substituída pelos olhos desesperados em lágrimas, pelas mãos que fabricavam bombas, pelos corações acelerados...Sangue, destruição, morte! 


Mil novecentos e quartorze: mais de 10 milhões de mortos. As guerras anteriores haviam alcançado seus 500 mil. Novas proporções. Um novo tempo que se arrastaria pelas guerras que se seguiriam dizimando um número maior de pessoas, moldando a economia, definindo os limites territoriais e os conflitos inter-étnicos. 

Eram aqueles os limites do homem ou chegaria a níveis piores? Era assim que se resolveriam os problemas da humanidade?! Era terrível. 

Todo aquele apreço por aquilo que o sapiente era capaz de criar, moldou-se em um angustiante refletir a respeito do que as criações deste mesmo seriam capazes de destruir. A dúvida!
E onde ficara a razão nesta hora? No incentivo a um conflito que durou quase cinco longos anos?! Ó ingenuidade tinha-lhes apossado a alma! Que Bela Época era aquela pela qual há pouco tinham-se deixado entregar?! A desilusão agora lhes acometia os sentimentos, os pensamentos, os restos caquéticos do coração. Ali estava uma juventude que sedenta por respostas, pensaria encontrá-la, quem sabe, numa fé totalitarista, a exemplo, um tal partido nacional socialista. Costumam dizer: nazismo... O mundo nunca mais seria o mesmo.


Por Samara Belchior.